domingo, 14 de setembro de 2008

Entre o sono e sonho


Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens.
Que todo o rio tem

Chegou onde hoje hábito
A casa que hoje sou.
Possa, se eu me medito;
Se desperta, passou.

E quem me sinto e morre
no que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa

domingo, 7 de setembro de 2008

domingo, 15 de junho de 2008

Mãe

Cora Coralina

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregue à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti
não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior aqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino de ser mãe.
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Será um animal somente de prazer
e ás vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro de amargura.

sábado, 31 de maio de 2008

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
Tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que veêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
Seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mãe...São três letras apenas

As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,
Todo bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer...

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

Mário Quintana

Humildade

Senhor, fazei com que aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter e
se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dói, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
minha terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo de meu fogão de taipa,
e acender eu mesma, o fogo alegre
da minha casa na manhã de um novo
dia que começa.

Cora Coralina

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Você

Quando eu o conheci, logo imaginei
será destino conhecê-lo?
Com ardor sincero me apaixonei.
Agora a todo instante quero vê-lo.

A noite quando olho aquela estrela.
A única estrela a quem confessei.
Tenho a impressão de entendê-la,
querendo dizer que enfim acertei.

Mas o tempo foi passando e agora é tarde.
Na vida sempre fui covarde.
Hoje poderia ser feliz, fazendo desse
amor uma nova diretriz.
Tristemente vejo que ele é proíbido.